Cavalaria de São Gonçalo e São Benedito

Guaratinguetá, Estado de São Paulo Caderno · A história Próximo cortejo: 28 de março de 2027

Caderno de história

Três séculos de caminho

Da capela dos tropeiros ao registro nacional, em cinco jornadas.

1726

Primeira jornada

Os homens do caminho

Uma capela à beira da estrada para as Minas.

No século XVIII, quem chegava a Guaratinguetá vinha pelo Caminho Velho, a rota que subia do porto de Paraty, atravessava a Serra do Mar por Cunha e seguia para as Minas Gerais. A vila era pouso de tropeiros.

Em 1726, tropeiros e viajantes ergueram ali uma capela a São Gonçalo do Amarante, padroeiro dos que vivem na estrada. A paróquia chama seus construtores de homens do caminho.

Era na capela que se pedia proteção antes de seguir viagem. A Meia-Lua, o giro que os cavaleiros fazem no fim do cortejo, lembra as evoluções a cavalo dos tropeiros diante dela. A capela ficou de pé até 1940.

O Caminho Velho no século XVIII Mapa esquemático, sem escala: o caminho sai de Paraty, no litoral, sobe a Serra do Mar até Cunha, desce ao vale do rio Paraíba em Guaratinguetá, segue por Lorena e atravessa a Serra da Mantiqueira pela Garganta do Embaú rumo às Minas Gerais. Paraty Cunha Lorena Garganta do Embaú Guaratinguetá às Minas Gerais rio Paraíba Serra do Mar Serra da Mantiqueira Oceano Atlântico N O Caminho Velho século XVIII · esquema sem escala
Prancha I. O Caminho Velho: do porto de Paraty, pela Serra do Mar, até as Minas Gerais.
Gravura colorida: um rancho de beira de estrada, coberto de palha, onde tropeiros descansam entre fardos de carga, com a serra ao fundo
Prancha II. Um pouso de tropeiros à beira da estrada. Gravura de Johann Moritz Rugendas, século XIX. Domínio público
Reconstituição artística: uma capela de taipa caiada, com telhado de duas águas e alpendre, à beira de uma estrada de terra, com viajantes e seus cavalos diante dela
A capela em 1726, como pode ter sido. Reconstituição feita com inteligência artificial: não existe registro visual da época

1757

Segunda jornada

A Irmandade de São Benedito

A devoção dos homens e mulheres negros chega à capela.

Trinta e um anos depois, a capela dos tropeiros ganhou um segundo padroeiro. Pessoas escravizadas levaram para ela a imagem de São Benedito e fundaram a Irmandade de São Benedito dos Irmãos Pretos Cativos da Vila de Guaratinguetá.

A devoção antecedeu a canonização: São Benedito só seria declarado santo em 1807. Em 1768, o bispo de São Paulo entregou a capela aos irmãos.

A memória oral guarda um traço desse tempo: fazendeiros cediam cavalos e arreios para que pessoas escravizadas participassem da festa. Emprestar um animal para o cortejo segue sendo, para muitas famílias, um gesto de devoção.

Gravura colorida de Debret: um tropeiro negro, de chapéu largo e capa, conduz a cavalo uma tropa de mulas marcadas a ferro
Prancha III. Escravo negro conduzindo tropas na Província do Rio Grande, Jean-Baptiste Debret, c. 1822. Muitos condutores de tropa eram homens negros, escravizados ou libertos. Título original da obra · domínio público

1888

Terceira jornada

O cortejo cresce

Depois da Abolição, a festa dos irmãos ganha a cidade.

  1. 1888Com o fim da escravidão, o cortejo se firma como prática coletiva da Festa de São Benedito.
  2. 1928É criada a Paróquia do Puríssimo Coração de Maria, hoje o ponto de chegada do cortejo.
  3. 1948A Cavalaria aparece nos documentos da cidade como celebração fixa do calendário.
  4. anos 70Vera Aparecida de Paiva França, filha do chefe Evandro Paiva, é a primeira mulher a desfilar montada.
  5. 1975Evandro Paiva assume a liderança e reorganiza o cortejo.
  6. 1990A imagem de São Gonçalo, doada à Matriz, volta a abrir o cortejo.
  7. 1992Os cavaleiros fundam a Associação, com estatuto e regras próprias.

Hoje

Quarta jornada

O Domingo de Páscoa

Três séculos depois, a viagem se repete todo ano, como procissão.

Geraldo Terra, Chefe de Honra, de terno branco, gravata e cravo vermelhos, chapéu e óculos escuros
Geraldo Terra, Chefe de Honra, na manhã de Páscoa de 2025. Foto Alberto Lefèvre · Iphan

Na casa de Geraldo Terra, o mais antigo dos Mantenas, a manhã de Páscoa tem ordem própria: a filha, Bilú, passa o terno branco e prende o cravo vermelho na lapela do pai, enquanto os sobrinhos dão banho e ferram os cavalos. Ele desfila desde os anos 1960 e, aos 89 anos, é o Chefe de Honra.

Bilú cumpre uma promessa feita a São Benedito quando nasceu com a saúde frágil, e hoje carrega o estandarte de Nossa Senhora Aparecida. É assim que o caminho passa adiante: crianças de 8 a 13 anos desfilam como mantenas mirins.

O dia, etapa por etapa

2026

Quinta jornada

O ano dos 300

O caminho chega ao tricentenário e ganha um marco nacional.

No Domingo de Páscoa de 2026, a edição dos 300 anos levou cerca de 80 mil pessoas às ruas. Em 22 de setembro, o Iphan registrou o cortejo como Patrimônio Cultural do Brasil, depois de onze anos de processo.

O registro abre caminho para um plano de salvaguarda, para que a tradição chegue às próximas gerações.

“Um ano marcado em nossa Guaratinguetá.”

Fernando Guimarães, Presidente da Associação
PATRIMÔNIO CULTURAL DO BRASILGUARATINGUETÁ · SP